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Viagem Portugal x Angra 2008
Ago
16
2008
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sábado, 16 agosto 2008 |
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Esse e-mail mandei para os amigos em Salvador
Pessoal, como vão todos? Sei que perdemos aniversários, regatas e churrascos nesse meio tempo, feliz aniversário atrasado para todos que não pudemos desejar feliz dia. Dia dos pais também não pudemos comemorar, mas isso damos um jeito na chegada. Também não vimos a abertura da Olimpíada e vai saber mais o que não vimos. Mandem novidades por favor.
O que posso dizer rapidamente agora é o que nós vimos.
Tubarão, golfinhos, Baleias, Peixes voadores, atum gigante assassino de currico, atum normal, dourada, um peixe sem identificação, aves marinhas no meio do nada há mais de mil milhas da terra mais próxima, tempestades de 5 minutos (trombas d’água ou Chubascos), zona de calmaria sem calmaria, previsões meteorológicas muitíssimo perfeitas. Vimos também um monte de filmes, escutamos muita música e comemos muito bem. Vimos navios de perto e de longe e também muita água salgada, algumas vezes dentro do barco. Vimos nossa posição no ploter passar de 0°00.001’ N para 0°00 e depois para 0°00.001S, fizemos uma cerimônia de passagem do Equador e meu batismo.
Não nos faltou nada a bordo estava tudo bem dimensionado e funcionando bem. Os planos de navegação foram muito bons e funcionaram. Fizemos 2400 milhas em 16 dias e algumas horas (em linha reta seria mais ou menos umas 2000 milhas).
Saímos de Mindelo dia 28/07/08 as 18h30 GMT, nesta noite fomos atacados por um atum gigante que comeu o currico (com isca, linha, anzol, cabo de aço) em 3 segundos, avistamos terra pela última vez dia 29/07 no fim do dia (Ilha Brava) quando perdemos mais um jogo completo de “preparo” com todo o carretel de linha e nossa Rapala mais nova. Pegamos o primeiro peixe (atum) dia 30/07 e mais tarde no mesmo dia uma dourada. Os Chubascos começaram dia 01/08 de tarde e daí por diante foram aumentando sua freqüências todos os dias, sempre a tarde, depois começaram aparecer durante a noite também e depois a cada tanto caia uma tromba d’água, o dia todo esquivando ou enfrentando grandes tempestades de chuva e vento que não duram mais de 5 ou 0 minutos mas que dão muito trabalho pois alteram os ventos e as ondas antes, durante e depois. Continuamos pescando atum e um que não sei o nome e também perdendo muitos outros por não conseguir parar o barco, por estar em muita velocidade ou por que os peixes arrancavam tudo ou quebravam os anzóis. Não havia como ganhar deles. No fim o peixe deve pensar “Caraca, mais um que me escapa! Não posso puxar nenhum de lá de cima”
A rotina segue com bom café da manhã sem faltar frutas e demais iguarias de um Desayuno Brasileiro, bons almoços, seção cinema e de tarde/noite muita luta contra os chubascos, ondas grandes, muito vento com rajadas de 25 a 30 nós (o que eu acho que não está certo, o instrumental marca isso, mas se vê que passa dos 35 e chega a 40 nós algumas vezes nas rajadas).
O barco quando vai rápido demais bate muito nas ondas, não nas grandes, mas sim nas menores e o mastro balança mais do que entendo ser normal e o Guille parece preocupado. Fizemos a travessia toda com pouca vela para equilibrar melhor o barco que realmente é um barco rápido.
Não encontrei a tal Zona de Convergência Intertropical, nem as calmarias. Parece que passamos dos Alísios do Norte para o Alísios do sul sem aviso. Importante mesmo é a corrente que tende a nos levar para oeste sempre. Cruzamos o Equador na Longitude 25°, o Guille tinha planejado cruzar na 24°, mas as condições para orçar (navegar para o lado de aonde vinha o vento) não eram boas e tínhamos que estar tratando o mastro com carinho. Se fosse no Macu (que já conhecemos bem) acredito que teríamos ido a golpes e trancos contra vento e as ondas para cruzar o Equador no 24° de qualquer jeito pois é muito arriscado dar bobeira por aqui e acabar em Trinidad ou no meio do Caribe levados pela forte corrente e ligando pra casa de Miame e dizendo que vamos demorar um pouquinho mais, tipo assim... um ano mais.
De todas as formas o Capitão, a meu ver, foi bem conservador na navegação e viemos usando motor somente para carregar baterias e para manter rumo durante as tormentas. Com o pouco consumo de combustível e com as boas condições que encontramos pela altura de Noronha seguimos por fora direto para “baixo” sem saber se entraríamos em Salvador ou se seguiríamos direto para o Rio.
Com muita coisa molhada de sal, pouca água restante (somente as reservas) e sem informes metereolológicos decidimos entrar.
Estamos em Salvador, no Bahia Marina, desde quinta-feira (14/8) já reabastecemos e preparamos o barco para a última etapa que começa hoje.
Resumindo a travessia foi tranqüila e rápida. O incrível é que cruzamos o Atlântico à vela, movido a vento, ar, isso que não se vê e não custa nada.
Até breve.
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Ago
14
2008
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quinta, 14 agosto 2008 |
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Proa ao Brasil
07 de agosto de 2008
18h30: São 240 horas de navegação desde Mindelo e na marcação 01°50’ S e 026°00’W, RV 200°, Velocidade 7,5 nós com vento ESE de 16 nós anotamos a singladura diária de 180 Mn.
08 de agosto de 2008
Minha começa as 22h30 e segue até as 3h50 com vento e velocidades constantes. O Capitão faz o turno até as 6h (quando pescou o atum da foto) e eu outro turno até 8h30. Já sem muitos problemas ou dificuldades passamos a fazer turnos mais curtos, que para mim não foi muito boa idéia, já que demoro muito em pegar no sono. De manhã o vento diminui e também nossa velocidade que passa para 5,1 nós variando pouco até as 16h30 quando o vento sobe para 17 nós e nossa velocidade volta para a casa dos 7 nós e alguma coisa, as vezes chegando aos 8 nós agora com RV 212°. Depois das 17h o vento vai aumentando e chega a rajadas fortíssimas durante as chuvas que aparecem por todos os lados, fortes e isoladas. Chove, chove, chove.
18h30 do décimo primeiro dia de navegação desde que saímos de Mindelo, marcamos singladura diária de 160 Mn na posição 04°23’S e 027°10’W com RV 212°, vento de 19 nós entrando no traves de bombordo, temos velocidade de 7,2 nós. Depois da seção de cinema fui dormir deixando Guille com a primeira vigia que foi feita sem notas no diário de bordo.
Dia 09 de agosto
Meu turno começa as 4h e a madrugada segue tranqüilo e sem notas até as 6h30 quando aparece um “target” no radar, ainda não sei se é um navio chuva, de qualquer forma melhor ter atenção, começa clarear as 7h30 GMT, o radar acusa algo a 8 Mn e dispara o alarme, deve ser mais uma tempestade. Vejo pequenas aves do tamanho de andorinhas, mas são inteiramente brancas e fazem manobras muito próximas às ondas. A manhã segue assim com vento constante de 19 nós entrando pelo través de BB. Durante a tarde se alterna sol – nuvens – sol – nuvens, sem chuva
As 18h30 do décimo segundo dia de navegação com 288 horas desde que saímos de Mindelo, marcamos a singladura diária de 170Mn na posição 06°11’S e 029°02’W com vento Leste de 20 nós, RV 227° e velocidade 7,2 nós com proa ao Brazil. Às 22h30 passa um navio com duas luzes brancas, uma na proa mais alta e outra na popa mais baixa. Começa minha vigia com instruções do Capitão para que eu saiba o que fazer caso o vento aumente ou diminua. Foi bom que explicou direitinho pois o vento aumentou e diminuiu várias vezes com média de 15 nós, mas chegando a cair para 4 nós às 00h30, também rondava muito e me deixou bastante ocupada durante a madrugada terminando com 3 grandes tempestades nas redondezas com muita chuva, mesmo assim a lua crescente está ali no céu sem ser incomodada pelas nuvens pretas das tempestades que antes de nos atingirem às 3h30 me mantiveram realmente muito atarefada. Durante as tempestades, com toda a confusão que elas geram ao passar, tive por duas vezes que trabalhar no leme pois o piloto automático não quer fazer hora extra durante tempestades. Tive que ligar o motor e o piloto mais uma vez se desconectou, mantive o motor ligado até as 5h30, quando o vento se afirma e diminui para 17 nós, corrijo o rumo para 220° depois de ter andado orçando e arribando 5° prá lá, 10° pra cá toda a noite. Com tanta atividade não tinha sono e nem porque acordar o Guille e fiz turno direto, 7h30 começa a amanhecer e ainda vejo os pássaros pequenos de ontem, fazendo manobras rasantes no meio de ondas bem grandes.
Da 10 de agosto de 2008
Guille assume as 8h30 e anota no diário muitas nuvens de chuva e tira foro de um lindo arco-íris, faz rumo 225° com vento entre 18 e 20 nós de EES, não tem descanso não, as 11h chuva forte com vento de 22 nós de Leste, as 12h ainda o mesmo vento sé que com sol forte. Depois do almoço, purê de batata misturado com abóbora e nós moscada, nos antecipamos às tempestades, a final já sabemos de onde elas vêm, quando e como. Logo aparece uma no radar, “bem do lado crítico”, quer dizer, lado em que as condições a fazem rumar diretinho para nós, reduzimos velas e ligamos o motor, ficando na expectativa. Vendo toda essa preparação a tempestade deu uma volta torta e “ se fue”.
Capitan Guille “traduzindo” o que disse a tormenta quando foi embora sem nos tocar: “Estes chicos no seben jugar. Me voy a buscar el Santa Fe, seguro que aquellos los mojo!” Pois é, fora a confirmação da lei de Murph no oceano, onde será que está o Santa Fé? Será que está tudo bem?
Décimo terceiro dia de navegação, singladura 13, 160MN. Posição 07°55’S e 031°00W; RV 220°, Velocidade 6,2
Ainda com luz paramos o barco para “subir” um peixe, mas não era um bom dia para nada mesmo. O peixão quebrou uma parte do anzol e se escapuliu. Ao anoitecer, enfim, choveu fino, muitas nuvens sem tormenta. Assistimos um filme e jantamos tranquilamente, fui dormir tranqüila e Guille fez a primeira Guarda sem notas no diário.
Começo meu turno às 5 da manhã do dia 11 de agosto de 2008 com muitas instruções do que fazer com as mudanças de ventos e com a rota. Começo com vento de 19 nós e RV 225°. Vejo na posição que estamos passando pelas “Pernambuco Sea Montains” 08°40’S e 031°52’W. Guille analisa nossa navegação e programa rota para Salvador. Não vamos parar em Recife. Além de não haver falta de Diesel, água ou comida, temos condições favoráveis de vento e corrente para seguir.
São 6h30 e tenho vento de través com 17 nós. Está tão escuro que não dá para saber o que é céu e o que é mar, dá para confundir a luz de uma estrela com o top de um mastro de veleiro. Aparece no radar um ponto suspeito a 12 Mn a BB que pode ser um barco. Já as 8h40 o vento mudou, a velocidade diminuiu, ondas altas e desencontradas, tive que mexer nas velas, pois o rumo já estava em RV 228° sendo que minhas instruções era manter-lo nos 225°, o sol aparece entre nuvens. As 9h30 liguei o motor para carregar baterias e tenho a companhia das aves marinhas que gostam de ondas. O ponto no radar se confirma, um navio com 3 pórticos de carga em cima passa bem perto por BE a apenas 1 Mn. Guille assume as 11h27 e escuto que sobe a rotação do motor mantendo em alta RPM por algum tempo. Durante o turno dele o vento chega a 22 nós, RV 220° e passam dois navios enquanto estou dormindo.
As 18h30 do décimo quarto dia de navegação após 336h desde que saímos de Mindelo, marcamos a singladura 14 com 150 Mn percorridas nas últimas 24h.
Posição: 09°43’S e 033°17’W, RV 229° Velocidade: 7 nós
Mais uma tempestade se aproxima e forma outro arco-íris (Tirei Foto). Estamos na altura de Maceió, faltam 358 Mn para Salvador. Outra tempestade vem chegando. As 23h50 o piloto mais uma vez pede descanso, temos 20 nós de vento e RV 222°.
1h00 da manhã do dia 12 de agosto de 2008 vento de 23 nós, velocidade 8, Rajadas de mais de 30 nós chegando a 9,2 até 9,5 de velocidade. Durante a madrugada não há descanso, duas tempestades, chuvas, ventos de 19 a 23 nós. 5h30 passa um navio a 4 milhas. Estamos aproximadamente a umas 100 milhas da costa. De tarde outro navio e outro peixe que nos escapa. Superação das perdas anteriores. Não conseguimos aquartelar bem o barco e a linha enrosca no leme, Guille tem que mergulhar para soltar... O vento diminui e as 17h45 GMT ligamos o motor para carregar baterias e aproveitar para adiantar um pouco o curso assim evitamos chegar à noite em Salvador.
18h30 do décimo quinto dia, singladora 15, 190 Mn percorridas nas últimas 24h. Posição 11°46S 035°08’W, RV 234°, Velocidade 5,7 (motor)
Guille assume o primeiro turno com vento de 19 nós e rumo 224° sem notas. Duas horas depois assumo com vento de 14 nós e rumo RV 232, radar acusa barco a 18Mn BE, depois de duas horas chamo Guille e informo condições : navio 14 Mn e nuvem de chuva na proa. Volto as 5h da manhã com 20 nós de vento várias luzes a 11 e 8 Mn direção 230°. Vento chega a 30 nós com rajadas de 35 a 40 nós, deixamos somente a genoa aberta e fazemos 8,5 nós de velocidade. O Navio que estou seguindo no radar nos cruza por BE a umas 2 Mn, mesmo assim arribo 5° para passar mais longe. Muito movimento e colocamos zonas de alarme e temporizador do radar para 3 minutos. Tudo calmo, desligo as luzes de navegação deixando somente a de top. O outro barco que nos cruzou fez a mesma coisa: desligou as luzes de navegação e deve ter colocado temporizador, porque desapareceu do radar. Dizem que os radares se detectam mutuamente quando ligados. Ainda vejo as luzes brancas.
Quase 6h, dia 13 de agosto de 2008, sem nada aparecendo no radar nem na vista, passo o temporizador para 10 min. O vento diminui, corrijo o rumo que foi alterado anteriormente devido ao encontro com navios. 18 nós caindo...12 nós chegando a 4,8 de velocidade. Mais navios aparecem em proa 12Mn de distância. Quase 7 horas GMT e ainda está escuro, vento 20 nós RV 240°, velocidade 7 nós. Amanhece as 8h50 GMT, navio passando a popa. Outro peixe que escapa.
À tarde, estamos no través de Barra da Esperança e Rio Real. Encontramos uma baleia muito grande que nos segue por um bom tempo. Surfa nas ondas da popa, passa por baixo do barco e faz manobras na proa pertinho! Fazemos filmes e fotos.
Singladura 16, posição 12°48’S e 037° 06’W nas ultimas 24 horas fizemos apenas 80 Mn, RV 249° Velocidade 6,7 nós. Faltam 83,79 Mn para Salvador, Guille se preocupa com a aproximação que se dará a noite.
Hoje abrimos a Melancia que compramos em Cascais (!), como dura! Perfeito para travessias. As abóboras ainda estão muito boas, temos ainda tomates, cebolas e alhos frescos. Nenhuma lata de comida foi aberta. Consumimos somente alimentos frescos por 16 dias.
Dia 14 de agosto de 2008 às 2 da manhã: faltam 42 milhas para Salvador, parece que posso ver alguma luminosidade no horizonte. Costa do Brasil! Primeira vez que avistamos terra desde nossa saída de Cabo Verde e a primeira vez que vejo o Brasil após 3 meses de ausência. Posição 13°04S e 037°55’W, RV 265°
Às 3 da manhã o radar detecta a costa e faltam 34 Milhas para Salvador. Ainda estamos usando hora GMT e só vai clarear as 8h GMT.Como já estamos em aproximação do porto de Salvador, em frente à Itapuã, o capitão decide aguardar o amanhecer com o barco aquartelado, parado, assim aguardamos a luz do dia para entrar no porto. Estamos alertas pois há pequenas embarcações e navios na área. Os barcos pequenos não disparam o alarme do radar e alguns nem mesmo aparecem. As 8h30 GMT / 05h30 local chegamos ao way point de Recalada: 13°05’S e 038°11’W, RV283° - Salvador, faltam 12 milhas para entrar na marina. Seguimos junto a costa, decisão do capitão: passar entra o Farol da Barra e o Banco de Arreia, existem bóias demarcando o canal mas estamos alertas pois esses bancos mudam frequentemente sua forma e posição. São muitos barcos de pesca, muita atenção, a cor da água é verde clara, a profundidade muda muito e estamos muito próximos da costa.
A aproximação ao Bahia Marina também exige cuidados mas é bastante simples.
12h00 GMT /09h00 Local – Chegada ao Bahia Marina. Chamamos pelo canal 69 VHF, recebemos apoio e fomos direto ao posto de Gasolina.
Totais:
278horas de navegação 16 dias e 12 horas
2400 Milhas navegadas
Utilizamos o motor por 79 horas (Hs Motor: 156)
Diesel utilizado: Aproximadamente 230 Litros
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Last Updated ( quarta, 26 novembro 2008 )
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Ago
07
2008
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De Mindelo até a Linha do Equador |
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quinta, 07 agosto 2008 |
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Entre Peixes Gigantes e os Zero Graus
Saímos de Mindelo dia 28/07/2008, destino Brasil! Deixamos a marina as 17h30 hora local, 18h30 GMT, posição marcada neste horário 16°53’N e 25° 02’W.
No fim da tarde escutamos o alarme do molinete. Peixe! Mas não deu tempo nem de chegar na popa. Nós estávamos levando um molinete grandinho e outro pequeno fixados nos postes do guarda-mancebo. Sem vara nem nada. O peixe levou tudo, Rapala, linha... tudo em alguns segundos. Como ainda estávamos na costa da Ilha de São Vicente lar dos atuns gigantes acreditamos que fomos “atacados” por um destes.
O vento fica mais fraco e assistimos o sol se pôr por trás da ilha Santo Antão.
A noite é clara e com pouco vento, fico do lado de fora admirando as estrelas. Passamos por um farol e logo depois avisto a enseada de São Pedro. Dá para ver luzes vermelhas que acredito ser novo o aeroporto de São Vicente.
Depois desta ponta quando deixamos o reparo da Ilha o vento se afirma o barco se equilibra e para de balançar. Passa um grande Ferry, sei lá para qual ilha ele vai!
Durante a madrugada nova rotina, navegamos com radar temporizado em 15 minutos, luzes de navegação apagadas e geladeiras também desligadas. Somente quando ligamos o motor é que aproveitamos e ligamos tudo, carregamos pilhas, liga geladeira, deixa radar sem timer, assistimos filmes...
No final da madrugada, quase clareando o vento se estabiliza em 20 nós, e como não quero deixar o capitão descansar reduzo velas e deixo o barco em uma velocidade tranqüila. Isso até as 07:30 quando deixo a guarda e o barco já pode mais uma vez voltar aos mais de 8 nós de velocidade já nas mãos de seu comandante.
Comandante e bom cozinheiro que me prepara peixe fresco (que vergonha, do mercado de Mindelo!) para o almoço.
De tardinha avistamos terra pela última vez. Ilha Brava, posição 14°53’N e 024°54’W. Depois daqui, terra só no Brasil!
Foi também no través dessa ilha que mais um “assassino de currico” leva todo “preparo” com a Rapala nova grande. Esses gigantes devem pensar: “ ish mais um que me escapa, não consigo puxar nenhum de la de cima”
As 18h30 marcamos a primeira singladura: 150 Mn em 24 horas de navegação.
Na Tarde do dia 30 de julho pescamos um atum de uns 4 kg e o preparamos em conserva.
Marcamos a segunda singladura 105 Mn.
O pôr do sol deste dia nos brindou com uma Dourada pequena, muito bonita. Os files dela com alcaparras no jantar completaram a felicidade de pescar dois peixes no mesmo dia.
O último dia de julho chegou tranqüilo com média de ventos de 15 nós, mais files de dourada no almoço com entrada de peixe voador frito e lula (que apareceram de surpresa no convés)
Seção de cinema de tardinha e marca de 180Mn percorridas nestas últimas 24h do terceiro dia de navegação.
Dia 01/08/08estamos fazendo rumo 185° e agora temos grandes ondas batendo por BE e proa, estamos na latitude 11°00N e Longitude 23°15w e ouço vento. O dia está muito bonito, sem nuvens, mar mexido.
Pelas previsões normais desta época teríamos que ter encontrado desde os 1° de latitude a Zona de Calmaria, chamada de Zona de Convergência Intertropical. Até agora estamos andando bem normal e nada de calmaria. A partir de agora teríamos que alcançar os Alísios do Norte.
No meio da manhã pescamos um atum, menor que o anterior que esqueci de tirar foto. Este foi preparado no sal para secar.
É complicado parar o barco para trazer o peixe, temos que aquartelar, fica balançando, cai tudo, tanta coisa para prestar atenção para alguém que está no meio do sono!
A partir desta tarde, com rumo 200°, começaram as tempestades que o Guille chama de chubascos. No meio do céu azul aparece uma nuvem negra com muita chuva e vento. Mar revoltado e ventos fortes que mesmo depois que ela passa, 5 min depois de começar, deixam tudo complicado.
Mais uma tempestade passa por nós e segue caminho.
Essas primeiras nos pegaram com muita vela e foi uma correria para reduzir panos, fechar janelas, verificar que não caia nada importante no chão. Já cansados 5 minutos depois temos que arrumar as velas de volta como estávamos, ventilar o barco pois faz calor e vida normal.
As tempestades passageiras não dos deixam em paz, a seção de cinema foi interrompida centenas de vezes por causa as tempestades, algumas vezes para desviar das tempestades pois são pequenas e bem delimitas, difícil é descobrir para onde vão,de onde vêm,mesmo com o radar ajustado para detectar-las.
Essa condição de reduzir velas varias vezes influenciou para que nossa singluadura deste 1uarto dia de navegação fosse somente 80 Mn.
O Capitão está seguindo os planos feitos em Mindelo a risca, mas resolver tentar escutar a Ronda dos Navegantes para saber se há alguma mudança ou problema. A Ronda transmite em 14362 no SSB, as 10GMT.
Durante a madrugada ainda com as tempestades influenciando nas decisões temos velocidade média de 7 nós com pouco pano e retinida segurando a retranca para evitar os trancos nas ondas. Já estamos na latitude 8°N mas continuamos na longitude 23° e alguma coisa W.
No quinto dia de navegação ao meio dia verificamos que havíamos gastado 80 de Diesel desde Mindelo.
Uma onda grande nos chocou pela borda de BE com tanta força que estourou a tampa de um dos galões de Diesel. Tivemos que rearranjar os galões, desamarrar, amarrar de novo. Ainda bem que amarramos eles de 3 em 3, senão teríamos que desfazer toda organizada fileira de galões de diesel arrumadas numa tábua fixada com perfeitos furos e cordas.
É uma tarde bonita de sol e mar mais calmo. Até quando?
Avistamos aves marinhas pequenas coçando entre as ondas. De onde vieram? Estamos no meio do nada, perto de coisa nenhuma!
Com 5 dias completos de navegação fizemos 170Mn nestas ultimas 24h. O Vento está com média de 15 nós. Rumo 180°. Velocidade média 7 nós.
Depois de várias tentativas, escapadas, manobras rápidas e outras nem tanto pescamos um peixe com faixas cinzas azuladas, parecido com cavala.
De tarde dia de faxina, banheiros, cozinha, quarto, cockpit tudo limpinho. Tenho toalhinhas umedecidas com diferentes produtos de limpeza especifico para cada coisa, isso ajuda muito na limpeza e não utiliza água.
De madrugada lutamos contra o sono e uma noite agitada por diversas tempestades “instantâneas” que surgem do nada e depois desaparecem. O Radar dá alarme, mais uma tempestade, mudamos de rumo algumas vezes para escapar de uma, fugir de outra e enfrentamos as inevitáveis. As rajadas passam dos 25 30 nós e as ondas ficam fortes e desencontradas. A freqüência das tempestades diminui quando amanhece o 6 dias de navegação. Dia 03/08 chega nublado, muito nublado e chove fino.
Estamos na latitude 6° e continuamos na longitude 23° como Guille havia planejado. Para não mexer muito nas velas andei derivando uns graus e para manter o planejamento temos que lembrar de voltar ao rumo assim que possível.
Completamos 6 dias de navegação e nas últimas 24h horas fizemos 100Mn. A noite chega e estamos cansados com mais de 12 horas de tempestade. Previsão de mais uma noite difícil.
Madrugada com muito vento e ondas contra. Muitos trancos e golpes. O Mastro se mexe muito e o capitão decide que é melhor para o barco até amanhecer. Aquartelamos a genoa, vela grande para um lado e leme para o outro. Balança muito mas conseguimos descansar e preservar o barco.
O dia 04 de agosto amanhece com 35 nós de vento e rajadas mais fortes que isso, corrente e ondas contra. No meio da manhã com rajadas de 40 nós e temperatura da água subindo a mais de 33 graus estamos preocupados pois hoje termina o prognóstico climático que conseguimos em Mindelo. De agora em diante temos que seguir mais de perto as condições e determinar por nossa conta a previsão do tempo.
Cruzamos com um navio depois de muitos dias sem ver nenhum. Tentamos contato pelo rádio, pois era uma boa oportunidade de conseguir previsão do tempo. Não conseguimos falar com eles.
No fim da tarde o vento diminui para 19 nós, ainda temos as velas reduzidas, vento de proa. Média de 6 nós de velocidade e rumo 230°
A singladura 7 não passa de 40 Mn, terrível atraso, as nuvens diminuem e até aparece uns raios de sol, continua mar grosso com trancos fortes.
O vento diminui e as condições melhoram um pouco, estamos felizes por isso e pelo novo sucesso na pesca. Mais um atum é preparado em conserva.
A madrugada é mais tranqüila, ainda com muito cuidado com o mastro. Nada no radar. Mas de repente o barco cruza e uma onda entra pela popa e me molha lá dentro no sofá do salão.
Estamos no 4° de latitude N e ainda no 23° de longitude W, 20 nós de vento, por precaução filamos a vela grande e reduzimos velocidade. Mesmo assim o barco ainda bate muito.
Depois de saborear uma salada de bacalhau com grão de bico e cebola marcamos a singladura 8, 145 Mn. Estamos recuperando as forças e a velocidade.
06 de agosto, estamos derivando desde ontem e agora estamos na latitude 2°N e 24° W, nos aproximando do Equador. O dia é de sol com nuvens e almoçamos aquele primeiro atum que estava em conserva.
Agora seguimos com uma rotina característica dos Alísios, pela manhã o vento se mantém a 15 nós até de noitinha. Volta aumentar depois do anoitecer. De madrugada cai muito. Nunca passa dos 25 nós e é constante de Sul variando pouco para Sudoeste. A corrente é importante entre 1 e 1,5 nós para Oeste o que gera preocupação quanto à rota. Já não há “chubascos” nem navios.
No fim deste dia marcamos a posição 00°57 N e 025°17’W totalizando a 9ª. Singladura com 200Mn percorridas nas últimas 24 horas.
Na madrugada do dia 07 de agosto, 2:55h, durante o 10°. dia de navegação, cruzamos a latitude 00°00 na longitude 025°27 W. O planejado era cruzar o Equador na longitude 23° ou no máximo 24° mas não pudemos arribar devido as condições: ondas e vento pela proa. Precisávamos preservar o barco e o mastro que estava mal regulado e se mexia muito. Evitamos enfrentar o mar de proa o que significaria muita violência nas batidas subindo e descendo as ondas. Por isso nos últimos dias derivamos 2 graus para oeste controlando bem essa situação para não nos arriscarmos demasiadamente. Isso porque as correntes no Equador nos poderiam levar para o Caribe, quem sabe para uma visita ao nosso amigo Adventurer em Trinidad ou pior... Já pensou ligar pra casa de Miami avisando que vamos atrasar um pouquinho mais?
Tiramos fotos no Equador, estava escuro e eu não vi a linha no mar não (hahaha).
Ao meio dia, fizemos a cerimônia de Travessia do Equador. Como o capitão Guille é veterano, foi responsável pela cerimônia e também por meu Batismo. Estávamos muito rápido e ventava muito então o tradicional mergulho transatlântico foi substituído por grande quantidade de baldes com água do mar muito fria! Isso depois de ovo e farinha abundante. Depois veio a parte boa, Espumante Português (Raposeira) que já estava estrategicamente localizada na geladeira desde ontem. Acompanhamos com tudo de gostoso que podíamos encontrar para petiscar. Uma taça foi para Netuno, Posseidom, Yemanjá e sei lá mais que outra divindade do mar, inteirinha virada na água do mar e mis um pouquinho borrifado no veleiro, que também precisava de um batismo de Equador não é?
De agora em diante tenho que lembrar que ao marcar as posições temos que colocar S na latitude em vez de N. Depois de tanto tempo com certeza vou me confundir.
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Last Updated ( quarta, 26 novembro 2008 )
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26
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sábado, 26 julho 2008 |
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O choque cultural foi grande, mas não tanto quanto eu imaginava. Isso aqui está bem mudado desde a última vez que o Guille esteve aqui. Também é diferente de tudo que eu li. Está mais desenvolvido do que dizem. Não é nada fácil fazer imigração. O Barco resolvemos rápido na Polícia onde é necessário deixar os documentos do barco e depois pagar uma taxa de 500 Escudos.
Cabo verde está muito mudado, África, realmente é África, mas se um cabo-verdiano vai a Angra, seguramente vai esconder bem a carteira com medo de assalto. São pobres de ma-ré-de-ci mas vivem bem os coitados com o salário mínimo de 50 euros.
É tudo caríssimo, água luz, comidas! A marina é um roubo! Internet tem por todos os lados, miséria e fome também. Está nos olhos e na formação óssea das pessoas, desnutrição que se nota no físico dos adultos e das crianças. As frutas e legumes são desnutridos também, tudo pequeno: tomatinhos, pimentãozinho. Grandes são os peixes, vermelhos, atuns e bicudas.
Não tem muito barco aqui, pois é baixa temporada para eles. A baia é perigosa, cheia de barcos afundados e que ninguém se dá ao trabalho de retirar ou nem mesmo de colocar uma bóia de perigo.
Cartão de crédito só local, e olhe lá.
Tínhamos reservado uma Suzuki 4x4 por 42 euros que conseguimos alugar no hotel 4 *que tem aqui. O único lugar dizia alugar carros com cartão de crédito. Queríamos dar uma volta na Ilha e conhecer os únicos 3 ou 4 pontos de interesse que consegui pesquisar. Não vamos partir antes de sábado e provavelmente vamos ainda poderíamos fazer uma excursão de Ferry boat até a ilha em frente Santoantão. Só que não tem cartão coisa nenhuma, só aceitam cartões de crédito locais. Então abortamos o passeio e com isso a possibilidade de reabastecer o combustível com galões utilizando esse carro.
Sobre Cabo Verde tenho as seguintes impressões para compartilhar: são pobres mesmo e têm marcado nos adultos a desnutrição que sofreram quando crianças. As coisas andam melhores para eles, vejo tudo mais organizado e limpo do que tinha lido e escutado nos relatos de outros navegantes e mesmo do Guille que esteve aqui em sua última travessia do Atlântico. Os pedintes de hoje são bêbados e crianças sem o que fazer, pois antes dizia o Guille que a fome e a miséria traziam bandos de pedintes que acompanhavam os navegantes por todos os lados tentando prestar algum serviço em troca de comida. Naquela época, uns 6 anos atrás, queriam lavar os barcos, carregar compras, mostrar lugares por um prato de comida, sobras ou roupas. Hoje estão parados por aí e quando passa um branquelo estendem a mão pedindo dinheiro mais por hábito do que por fome.
O Governo deles está empenhado em fazer projetos e planos de todos os tipos, divulgado suas diretrizes pela rádio e em pinturas nas ruas sem muito texto, tentando conscientizar o povo da necessidade de ir ao médico, de manter as coisa limpas, de não queimar, desmatar e outras coisas assim. Difícil para uma gente que tem tão pouco para viver. A Ilha de São Vicente onde está Mindelo depende das outras ilhas para alimentos frescos e todo Cabo Verde depende da importação de produtos de Portugal e do Brasil, pois é muito seca e de solo pobre.
Aqui a cultura também importa suas bases de Portugal e complementa com um toque brasileiro que está nas músicas, nas novelas e na Igreja Universal do Reino de Macedo. Não há nada para levar de lembrança que não seja a hospitalidade do povo, sua música, dança e comidas típicas. Artesanato e suvenires são bugigangas e as galerias de artes expõem peças do Senegal. O que é lindo e admirável são a arquitetura e o casario preservado estilo português colonial.
Preservados casarios de arquitetura portuguesa fazem parte da paisagem de Mindelo, desde as casas da cidade até os palácios do governo (fechados ao publico, mas muito preservado mesmo). Não sei se é pelo orgulho que esse povo tem de ter sido português ou pela falta de dinheiro para construir algo no lugar que tudo isso está ainda de pé. De qualquer forma muitos bens de importância arquitetônica ou histórica foram restaurados pelo banco Atlântico e pelo banco Frances. Equivoca-se quem pensa ou diz que o cabo-verdiano tem algum ressentimento colonialista, a maioria parece se identificar mais com a Europa do que com a África.
A música de Cabo Verde é boa e famosa, veja Cesária Évora, que é bastante difundida no mundo. Eu já tinha gravado um álbum de Lura e o mais novo de Ildo Lobo ainda quando estávamos em Portugal, cortesia de Rafael um eletricista Cabo-verdiano que trabalhava na montagem do barco. Aqui no clube náutico fomos assistir uma dupla tocando o gênero “morna”, um tipo de desafio com dois violões. Tudo cantado em Crioulo, um idioma local que parece muito com uma mistura de português, francês e algum idioma de origem africana.
Nas ruas passam carros novos ou mais ou menos novos e têm uma grande obra ao lado da Marina que parece ser uma urbanização ligada ao empreendimento da Marina, ouvi dizer que seriam colocadas lojas e um passeio, pra ficar pronto para a próxima temporada. Querem mesmo organizar a coisa por aqui. Os carros até param na faixa de pedestres como em Cascais.
Não consegui comer o tal Cachupa (comida típica com carne de porco e mandioca), disseram que é parecido com feijoada.
Sobre o turismo, queríamos conhecer a Baia das Gatas onde há um festival anual de música muito famoso, uma comunidade de pescadores chamada S. Pedro e uma praia com piscinas naturais chamada Calhau. Tudo isso dá para fazer com transportes públicos, só que não deu tempo mesmo, vamos deixar para uma próxima vez.
Outro passeio que deixamos de fazer foi sair com o Ferry para Santoantão (ilha em frente) para conhecer um pouco da cidade de Santiago, também importante no arquipélago que é onde está a Embaixada Brasileira.
Como não foi possível visitar os pontos mais importantes tentamos aproveitar o que há de melhor aqui: as pessoas.
Nós fomos visitar Pulu, um rádio amador da Ronda dos Navegantes que o Guille conhece a séculos por rádio, mas que só hoje teve o prazer de conhecer pessoalmente. Com ele e os correspondentes dessa ronda vamos ter detalhes metereológicos que vão ajudar a fazer um planejamento mais proveitoso da travessia. Recebemos ele no barco, conversamos um pouco depois fomos à casa dele e fomos muito bem recebidos.
Estávamos tentando fazer imigração, sentado por horas em frente ao escritório deles no porto quando bateu fominha e puxei da bolsa uma barrinha de cereais. Passou um transeunte e primeiro tentou uma comunicação em francês, melhor que o meu. O Sr. Sem Dentes engatou um espanhol com o Guille e depois mandou piadas sobre Brasil em português e crioulo quando disse que eu era de lá. Saiu e voltou em alguns minutos trazendo uma manga pequenininha (como tudo aqui, subnutrido), disse que era manga da terra e me ofereceu com gosto. Imagino que ele ficou com pena de eu ter comer aquela coisa horrível com bolinhas duras e frutas secas da barra de cereais e imaginou que poderia me oferecer algo do pouco que ele deve ter. Também imagino a vergonha que ele devia sentir pela falta de educação de suas autoridades em deixar-nos aí plantados esperando com fome para fazer uma burocracia que é obrigação deles e não nossa. Por isso mostrou, de sua forma, que a ineficiência do Estado Cabo-verdiano não reflete a hospitalidade de seu povo. Que sirva de crítica para o Brasil também.
Em um dos guias de navegação inglês o autor conta dos perigos, dificuldades e problemas de Cabo Verde, mas no fim termina dizendo: “ tratem de chegar logo em Cabo Verde antes que tudo isso melhore excessivamente”. Entendo o que ele quis dizer. Cabo Verde é muito interessante, mas logo logo vira turístico, e sorte de quem conheceu antes.
A metereologia não ajuda e aguardamos mais informações para saber a zona mais estreita para passar a área de calmarias do Equador. Devido as 7 tempestades (Furações) que estão por aí no Atlântico Norte, a zona de calmarias está com muita atividade e não podemos prever com o vai ser. Além da falta de ventos comum desta área essa situação pode resultar em muitas ondas na Zona de Convergência Intertropical.
Estamos preparando uma saída com prognóstico bom para não precisar de motor até chegar às latitudes baixas para, caso precise, usar força total durante os 2 ou 3 dias de calmas equatoriais que devemos ter nesta Zona.
A idéia é rumar para o Porto mais ao sul possível, uma vez no Brasil. Caso a travessia nos custe muito combustível e água teremos que parar em Recife para reabastecer. Se for tudo bem, mandaremos direto a Salvador que de Angra é um pulinho ao lado do que já temos navegado. E, em um cenário super otimista, cruzamos direto ao Rio.
Pelo que mostram as loucuras climáticas atuais o mais provável é chegar em 15 dias à Recife. O navegador me mostra 10 dias, mas não é real, pois o computador faz um cálculo pela média de velocidade que temos feito até agora, e, considerando que de aqui em diante a coisa deve ficar mais lenta e complicada não sei como vai ser.
O Bavária 44 é muito bom e rápido para ventos fortes, mas quando baixa dos 10 nós de vento se desenvolve bem menos que nosso barco (Macu) que é 4 pés menor que esse. Só que o Bavária 44 deve ser o dobro em peso e volume que o Macu. Tem o fundo bem reto deixando-o veloz com grande superfície em contato com a água. A popa é enorme de larga e com leme curto e quilha com bulbo, o para nós aqui no oceano pode até ser desfavorável nos ventos de popa com ondas e para arribar, mas que não dignifica nada para navegações interiores podendo até se converter em vantagem em lugares que se necessita pouco calado. Quase não aderna o que deixa a vida a bordo totalmente confortável. Fazemos café da manha, merenda, almoço, petiscos do porto sol, jantar, ceia e chá da madrugada, serviço completo sem problemas.
Vou observando tudo o que posso e tentando ganhar experiência em outros assuntos. O radar, por exemplo, tive que decifrar e agora já estou “pilotando” mais ou menos bem, uma vez que essas tecnologias não faziam parte de meu dia-a-dia. O planejamento e a navegação também têm me deixado ocupada já que quero aprender bem isso.
No mais sigo com minhas funções a bordo sem problemas e ajudo o capitão sempre que ele precisa. Também sou responsável por ler interpretar e traduzir todos os guias e informações que colecionei antes da viagem. Outra coisa maluca tem sido decifrar os boletins metereológicos da Meteo France pelos rádio, me custa muito colocar em prática os 3 nos de francês que estudei. Gravo no celular e escutamos várias vezes até ter boa noção do que temos para o dia na área e no geral. É também por aí que temos as noticias do mundo, da Argentina e até do Brasil.
Já que não alugamos o carro, estamos devagarzinho carregando os galões no posto da cidade e caminhando com eles até o barco, estamos comprando coisas frescas de mulheres que vendem verduras, legumes e peixes na rua. Fomos também num mercado popular e no mercado de peixes.
Carlos e Denise, tripulantes do veleiro azul que encontramos quando chegamos a Mindelo, nos ajudaram muito explicando onde fazer a burocracia, compras, valor do dinheiro e também foram nossa família por 7 dias. Eles estão há um mês em Cabo Verde e ela está escrevendo um livro sobre um senhor, antigo navegante daqui. É uma incrível capitana, experiente, inteligente e divertida. Putz que orgulho tenho das mulheres vendo a força dela. É um exemplo, ídola!
Fretamos com eles uma caminhonete e fomos comprar mais diesel para os dois barcos, pois eles também tiveram uma péssima experiência no Posto de Combustível dos Pescadores. Os Capitães, Guille e Denise, planejaram juntos nossa rota e discutiram os dados climáticos e detalhes da travessia pois Denise e Carlos estão rumando para Buenos Aires com seu novo barco.
Aí foi que domingo dia 27 de Julho, Guille tinha tudo definido e boas previsões de ventos. Vamos partir amanhã, segunda dia 28 de Julho.
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Last Updated ( sexta, 12 setembro 2008 )
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Jul
15
2008
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Tenerife (Canárias) x Mindelo (São Vicente) |
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Written by Administrator
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terça, 15 julho 2008 |
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Saímos de Tenerife dia 15/07/2008, logo após a primeira revisão do Motor. Já estávamos prontos para sair desde o dia anterior. Tivemos que esperar que o vento nos deixasse manobrar com segurança. Na saída da marina tirei umas fotos de Radazul e da pequena entrada escondida da Marina para caso alguém precisasse dessa informação algum dia.
Mais uma vez sofremos com o forte vento local durante alguns minutos. Rumamos pela costa de Tenerife Rumo 193°v, o instrumental apontava cerca de 840 Mn de distância até Mindelo, próxima parada.
Passamos pelo Farol da Punta Abana e pelo Farol de Punta Baja, este último bem pertinho. Vimos o sol se pôr atrás da Ilha Gomera. Com rumo 215° e 8,2 nós.
Era mais de 20h quando tivemos que ligar o motor, vento indefinido alteramos o rumo para 221° , Motor ligado até as 23h (RV 212°, Velocidade 6,5).
Estou fazendo a dieta das primeiras 24h de navegação para evitar enjôo e está funcionando bem.
Dia 16 de Julho, pela madrugada passamos pela Ilha de Hierro no través de BE. Adeus Canárias! Alguns navios aparecem e passam perto durante o amanhecer (05:50). Pela mahã o vento aumenta para 19-21 nós e estamos fazendo rumo 213°; escutamos pela última vez a Meteo España, não se escuta muito bem.
A tarde tomamos a posição da primeira 24h de navegação (Singladura 1): 150Mn navegadas
Posição: 26°11’ N e 017°55’W; Rumo 222° Velocidade 5,1
Dia 17 de Julho de madrugada com nada no radar e ondas grandes. Estamos na altura da Pta Dunford (Saara Oc.). As rajadas chegam à 34 nós e a decida das ondas com mais de 8, 9 nós de velocidade não é fácil. Pela manhã o vento não passa de 16 nós (NNW) e fazemos rumo 208°Escutamos a Meteo Marine da Radio France, com atenção ao deslocamento do Furação Berta.
Fomos visitados por um grande grupo de golfinhos. São escuros e grandes com cabeça redonda e pouco focinho. Assobiam muito, se acercam e brincam de passar por baixo do barco, apostar corrida na proa e saltar nas ondas. Eu acho que eles sabem que tem gente no barco pois chegam bem perto quando estamos na borda e gritam quando vamos para dentro, tenho a impressão que vejo um espiando pela janela. Fizemos filmes e tiramos fotos.
A tarde marcamos a Singladura 2: 150 Mn
Posição 24°12N e 019°30’W Rumo 210°, velocidade 7,0 nós
Vento entrando a 150° a Boreste com 20 nós.
Já consumimos 50% da água do tanque de proa, que significa mais ou menos 75 Litros.
Estamos passando pela Montanha submarina do Trópico (não sei que é isso).
A geladeira consome muito e a desligamos para economizar.
O instrumental “diz” que faltam 470 Mn para Mindelo
Dia 18 de Julho foi um dia complicado, Tivemos muito trabalho com entrada de água salgada por uma válvula de anti-retorno do Gerador e com algumas uma onda que quebrou em cima do barco e molhou bastante. Como temos água suficiente preferi tirar um pouco de sal dos colchões para não estragar, são novinhos e quero que cheguem assim.
Escutamos a Meteo Marine as 11h40 como sempre. Com essa previsão o Guille confirma os planos de navegação certificando-se que nada estranho está acontecendo por aí.
Estou cozinhando o almoço quando Guille me chama baixinho... Veni ya! Vini a ver! Tiburón! Uma barbatana vem se aproximando sentido contrário ao de nosso curso, faz zigue-zague, passa pertinho e vai embora. Silêncio.... Putz! Nunca tinha visto um assim. Vi em Noronha mergulhando, mas foi diferente.
Marcamos a terceira Singladura = 180 Mn
Posição 21°54’N e 020°56’W
Rumo 216°
Velocidade 6,5 (Motor)
Vento NNW
Guille calcula que consumimos aproximadamente 36 Litros de diesel até agora.
Dia 19/07 de madrugada não aconteceu nada, mas parece que o vento está diminuindo e deixa o mar agitado. Escutamos a Raio France e realmente informa que nosso setor terá ventos de força 2, 3 máximo 4. Seguimos a Motor e o instrumental mede 257 Mn para chegar em Mindelo.
“Coletamos” peixes voadores azarados no convés na companhia de uma lulunha. Limpamos e deixamos no limão para almoçar mais tarde, super saboroso.
Marcamos a singladura 4 = 120 Mn
Posição 20°09’N e 022°22’W
Rumo 217°
Velocidade 5,8 (Motor)
Seguimos sem novidades e com pouco vento no dia 20 de julho. Escutamos a Meteo FR que informa uma depressão no Sul da Mauritânia e prevê vendos N-NE de força 3 a 4 com mar agitado na Área de Cabo Verde.
A falta de vento deixa tudo chato e incômodo. Usamos motor quase ot dia todo o que valeu a pena, pois marcamos a singladura 5 com 130 Mn navegadas
Posição 18°33’N e 023°25’W
Rumo 209°
Velocidade 4nós (Motor)
Dia 21 de Julho de 2008
Ainda sem novidades e sem vento, não há nenhuma anotação no diário de bordo...
A Meteo Marine da Radio FR diz que a área de Cabo vende vai continuar com vento Norte, força 3 a 4 e mar agitado, comenta a formação de uma Tempestade Tropical com ventos de NO e chuva mais ao Norte.
A aproximação da Ilha de São Vicente ocorre as 16h30
Recalada Posição 16°53’N e 024°59’W (Ilha dos Pássaros)
A Ilha é formada por rochas escuras e grandes paredões. A primeira vista de longe a ilha é de dar medo,não parece que vive gente aí. Se vê no outro bordo a silhueta da Ilha Santoantão.
O OziExplorer, software de navegação ligado ao GPS, não consegue calibrar a carta e não temos detalhes de Porto Grande. Bem que eu tinha lido nos guias de navegação para tomar cuidado com as cartas de Cabo Verde, dizem para não confiar nem nas mais novas.
Entramos no visual com muito estresse, barcos afundados e perigos não sinalizados. Avistamos acidade de Mindelo com casas baixas e depois todo o Porto, com barcos feios, velhos e enferrujados nas poitas da enseada.
Tentamos uma aproximação ao cais de pesca. A Dárcena de Pesca, estava sinalizada e fomos entrando pela esquerda. Quando escutamos gritos e assobios. Fui à proa e vi manhas escuras no fundo. O Capitão desviou dos mastros do barco naufragado a frente por muito poucos metros. Fomos até o barco de onde saíam os gritos de alerta, nos disseram para entrar pelo outro lado. Já com um certo trauma, eu na proa olhando as pedras no fundo, a sonda mostrando pouca água, a dárcena cheia de pesqueiros, um píer de pedra mal defendido e muito vento foram dados suficientes para o Capitão Guille tmar a decisão de não abastecer.
Fomos para a Marina Mindelo, que é novinha e nessa época quase não tem barcos. Escolhemos entrar pelo lado da marina voltado a pequena enseada onde ancoram os veleiros. Não aparece ninguém para ajudar a encostar e venta bastante. Chega uma lancha equipada com artilharia pesada de PESCA, diz par para de proa para a costa com uma bóia e a popa no finger.
De repente vejo uma Bandeira Brasileira num barco azul. Não dá tempo para olhar direito no meio da manobra. Um funcionário da Marina com Camisa Ronaldo 10 dá direções de como parar, com muito vento a manobra deve ser perfeita, não vai ter segunda chance. Guille mantém o barco perto da bóia usando motor para que eu passe o Lais de Guia rapidamente e me dedique a arrumar a altura das defensas do lado que vamos encostar no barco azul tudo bem rápido porque o vento nos manda para cima do vizinho com bandeira Brasileira. Volto rápido para a proa para lidar com a amarra evitando que o barco toque a popa no cais e ao mesmo tempo dando cabo suficiente para que o Guille e o “Ronaldinho” amarrem a popa.
Depois de bem amarrado e já passado um segundo cabo na bóia estávamos tranqüilos e poderíamos relaxar.
Foi quando conhecemos Carlos, argentino, do barco ao lado, capitaniado por Denise, brasileira, que já conhecíamos de outras navegações... que mundo pequeno.
Nós chegamos ontem em Cabo Verde, Mindelo, Ilha de São Vicente.
Tivemos 2 dias de calmarias antes de chegar e tivemos que usar motor. O Barco está navegando direitinho sem mais problemas.
A aproximação a Cabo Verde foi complicada, conforme o que dizia nos guias há erros nas cartas e o nosso navegador pirou, não entendia o waypoint, entramos com cuidado no olho e na carta de papel mesmo. Tentamos uma parada no posto de gasolina dos pescadores, mas são muitos os perigos e desistimos. Paramos na marina ao lado de uma amiga, Denise, que eu conheci em Angra e o Guille já conhecia de outras navegações (que mundo pequeno).
Totais:
880 Mn navegadas
122 horas de Navegação
57 horas de utilização de motor
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Last Updated ( sexta, 12 setembro 2008 )
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