Último trecho da viagem de delivery do veleiro Beneteau Cyclades 50.4
Estava tudo planejado para ir à Caravelas, já tínhamos todos os dados, cartas, sugestões, dicas de como entrar na barra. Segundo informações o canal está dragado e sinalizado e há um molhe para parar os barcos com um supermercado próximo. Mas não foi desta vez. Teve gente preocupado que não chegamos ao destino, mas consegui avisar da mudança de planos para alguns. Isso de marcar lugar e dia não serve para os veleiros. As condições do mar e dos ventos e nosso prazo de entrega do veleiro em Angra foram decisivos para alteração de roteiro.
No pouco tempo que estivemos ancorados em Ilheus preparamos o barco para mais uma etapa de mar. Partimos dia 02 de outubro de 2009 as 17h30. Chamei o Ilheus Iate Clube por rádio e agradeci a hospitalidade. Deixamos o porto pela parte de dentro dos ilheus com profundidade de 6,7m controlando os arrecifes pela carta e no visual. O vento era de 17 nós Sul (quase de proa, fazíamos rumo verdadeiro 168°). Seguimos durante uma hora com motor e vela grande. Passado o perigo dos arrecifes o Capitão decidiu fazer um bordo para fora (RV 075°), o vento era de 13 nós de SE, abrimos genoa e desligamos motor, o veleiro fazia entre 6 e 7 nós de velocidade nestas condições. Após o jantar Capitão Guillermo decide que é hora de cambar, manobramos as 21h voltando-nos para terra, rumo verdadeiro 175°.
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Agora somos 3 tripulantes, as vigias são mais longas Guillermo ficou até a 1h e Beto o substituiu até as 5h, eu fiquei com a guarda da manhã e era 5h20 quando o sol apareceu. Não sei dizer o que é mais emocionante: o entardecer ou o amanhecer no mar. A grande vantagem de navegar é que geralmente temos a alegria de ver o dia terminar, escurecer, ver as estrelas e em algumas horas ver o dia nascer. O sentimento de estar vivo que essas coisas transmitem não é fácil de se descrever.
Dia 03 de outubro durante a manhã estávamos em frente a chamada Costa do Descobrimento (Porto Seguro/Cabralia) e temos terra à vista. Contei para os argentinos algumas histórias sobre o "Descobrimento", algumas dessas tipo de escola e outras versões menos oficiais. A conversa ficou mais quente quando começamos a analisar as condições de ventos e correntes, além das obvias necessidade de abastecimento, que as naus portuguesas teriam enfrentado nos meses de Março/Abril na rota Lisboa/Canarias/Cabo Verde/ Santa Cruz de Cabralia (?). E sabendo que existem sinais de terra reconhecíveis muitas milhas de distância ficamos imaginando qual a real possibilidade deles terem chegado realmente pela primeira vez e por acaso onde os livros dizem que Pedro Alvares Cabral chegou. Apesar das suspeitas levantadas fiquei imaginando que aquela visão da costa brasileira teria sido a mesma que Pero Vaz de Caminha descreveu em sua carta ao Rei D. Mauel, quando relata detalhes da primeira vista à terra, o Monte Pascoal e quando deu-se o nome de Terra de Vera Cruz. Como brasileira que sou não deu para esconder o tom meio nacionalista fervoroso misturado com Guia de Turismo que tomou minha apresentação histórica da costa aos meus colegas hermanos.
Mais tarde as 13h avistamos baleias pela primeira vez nesta viagem, um grupo de 3 ou 4 , provavelmente jubartes, muito grandes, escuras e com a nadadeira dorsal pequena. (Registro aqui a posição para quem seja útil 16°16' 722S; 038°48'540W; há 23 milhas náuticas da costa). As 17h20, marquei os dados de posição e rumo e calculei 121 Mn percorridas nas últimas 24h em linha reta.
Anoitece e estamos preocupados com a entrada em Abrolhos, muitas baleias por todo lado, recifes perigosos e está nublado, chove fino. Já era mais ou menos meia noite quando avistamos o Farol de Abrolhos, Guillermo entra e sai algumas vezes para corrigir o rumo, estamos no Canal de Abrolhos e não vamos parar. Parece tudo calmo, quando o veleiro começa perder velocidade (estávamos a 8 nós, somente com velas), em seguida um barulho forte, uma batida, tivemos que procurar o que estava acontecendo. Preocupados e assustados vimos um barco pesqueiro, na popa. O veleiro começou a se afastar já voltando a navegar a vela e quando nossas luzes de popa iluminaram o "agressor" vimos claramente um cabo grande flutuando saindo do pesqueiro e por baixo de nossa embarcação. Ninguém saiu do barco de pesca, ninguém respondeu aos chamados ou apareceu. Fomos nos afastando discutindo porque ninguém viu o barco se aproximar. Sem luzes com chuva fina e forte com vento, pescando dentro da área de preservação de Abrolhos 1h da madrugada é lógico ele queria passar desapercebido. Mas como é que ele apareceu tão rápido e bateu na popa do veleiro? E que cabo era esse? Por que o choque não foi mais forte? Passado o susto e verificada a extensão dos danos, com a cabeça fria lembramos que o veleiro reduziu a velocidade antes do choque, percebemos que isso se deu porque agarramos com a quilha do veleiro a rede do pescador infrator e arrastamos o barco pesqueiro que foi puxado rapidamente e se enroscou no guarda mancebo estourando o cabo de aço com forte estrondo.
Que o susto sirva de lição, se nós tivésemos batido nele a 8 nós naquelas condições o desastre teria sido duplo, não acredito que nenhuma das duas embarcações teriam sobrevivido ao choque direto. Acho que a tripulação do pesqueiro ilegal não apareceu para fugir do que estavam fazendo e podem até ter visto aproximar nossas luzes de navegação mas pela distância e rota não acreditaram que haveria colisão, só não imaginávam que o veleiro iria arrastar-los pela rede com a quilha. Outra lição/pergunta: será que o radar não era mesmo necessário? Será que não teríamos sido alertados pelo equipamento da presença de um alvo no escuro? Quais os riscos de danos materiais e humanos corremos por falta deste instrumento? Esse risco vale a economia?
A navegação costeira é com certeza mais complicada e perigosa que a navegação de travessia do Atlântico. Por isso a tripulação deve estar completa e o radar instalado, funcionando e testado. As baleias continuaram por perto e não nos deixam dormir de preocupação. As 5 da manhã do dia 4 de outubro duas baleias aparecem muito próximas à popa. Dia chato com pouco vento (12 nós W). Tiramos fotos e fizemos filmes das baleias, exibem suas caldas brancas e saltam de costas, uma passou de baixo do casco. As 17h marcamos a posição, estamos em frente ao Rio Doce. Passamos Tubarão e Vitória durante a noite, estamos próximos da costa navegando a motor durante todo o dia, muito trafego de navios e atenção redobrada.
Dia 05 de outubro de manhã presenciamos um espetáculo da natureza! O mar ficou calmo e a água espelhada e lisa, como de um lago no meio do mar. Uma névoa cerrada envolvia-nos em uma atmosfera meio de Avalon. Podíamos sentir o silêncio, não havia pássaros, vento, ondas, nada. Era o puro nada. A luz do sol aparecia filtrada na nevoa e a cor da água era verde clara e tinha manchas brilhantes que desapareciam quando nos aproximávamos tornando-se verde cor de suco de cana. Uns barquinhos aparecem no fundo e acho que vejo montanhas. Estamos preparando a passagem pelo canal de São Tomé. Mais uma vez temos pressa e as codições são adequadas, então não vamos desviar do banco de areia do Cabo de São Tomé, vamos passar por dentro, próximo à praia num canal de 4 a 6 metros que está escondido aí e que nos economiza meio dia de viagem. Vemos cada vez mais barcos e menos baleias. A cor da água muda e vejo árvores na costa, o Cabo está a nossa frente. Entramos nas baixas profundidades bem na hora do almoço, hoje o menu vai ser mais simples! Seguimos alertas com a profundidade e o computador ligado com navegador e GPS, todos atentos. Entra ventinho bom... abrimos genoa e chegamos a desligar o motor. Passamos bem pelo canal, boas condições, nem um pouco parecido com o estresse do ano passado quando cheguei a ver ondas quebrando, pouca profundidade e dezenas de pesqueiros. As 17h do terceiro dia de navegação desde Ilheus, superamos o que eu acredito ser o último obstáculo dessa viagem. A partir de Agora estamos quase em casa, águas da vizinhança.
Muito movimento de navios e pesqueiros próximo à Macaé. O movimento de barcos continua até proximo há Buzios que passamos de madrugada, amanheceu quando passávamos pela Ilha do Farol (ou Ilha de Cabo Frio) com seus rochedos altos que deixaram o Beto meio preocupado. Depois da ilha entrou um típico Nordeste da Região e chegamos a fazer 15 nós de velocidade, o mar encaracolou e navegamos durante algum tempo com boa velocidade. O dia era de sol e os meninos estavam contentes com a pesca de um atum médio. Passamos por muitos navios grandes em frente ao Rio de Janeiro. As fotos ficaram bem bonitas e pescamos uma Anchova. O entardecer foi lindo proximo à Restinga quando completamos 4 dias de viagem desde ilheus e 8 dias desde Recife.
Detesto entrar na Baia da Ilha Grande a Noite, mas fazer o quê? Aí estamos mais uma vez. Muitos navios, o Farol dos Castelhanos que demorou para ser identificado, as boias de entrada do canal, as ilhas... Contei para os meninos que o Farol da Ilha do Pau a Pino pisca 3 vezes e fica 10s apagada, fácil de identificar, passei muito tempo de minha vida contando os lampejos desse farol desde a varanda da casa de meus avós no Abraão. Depois de um tempo entre outras milhares de luzes identificamos a Ilha, passamos por barquinhos tipo canoas que pescam por essa zona a noite e só acendem as luzes quando estamos passando perto. Identificamos as marcas do canal, fizemos rumo à Ilha dos Macacos, em fim Angra. As 20h horas estávamos em frente à Verolme.
Guille entregou o veleiro inteirinho depois de ter saído da França, passado por Portugal, Canarias, Cabo Verde, ganhado a Regata Refeno em sua classe, e navegado em condições ruins desde Recife até Angra. Missão cumprida. Missão comprida! Foi um grande sucesso de planejamento de navegação, meteorologia, abastecimentos, rotas, consumo de combustível otimizado, baterias, equipamentos, velas... Deu tudo certo. A embarcação também ajudou, veloz e estável é um bravo veleiro.
Você pode navegar neste barco e Angra, Ilha Grande e Paraty, e se preferir pode contar com a presença do capitão Guillermo em seu charter. Entre em contato conosco.
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